Com ensino médio estagnado, MEC já planeja mudanças no currículo


15/ago/2012

Prova do Ministério da Educação mostra que alunos tiveram o mesmo desempenho de 2009

Primeiras séries do ensino fundamental evoluíram mais do que o esperado, enquanto o antigo colegial parou

O governo federal pretende mudar a grade curricular do ensino médio público e diminuir o número de disciplinas na grade das escolas.

O plano de mudança foi anunciado pelo Ministério da Educação após a divulgação dos resultados do Ideb, o índice que mede o desempenho da educação básica nacional.

Segundo os dados referentes ao ano passado divulgados ontem, o ensino médio, antigo colegial, estagnou no país. A nota, que vai de zero a dez, considera o desempenho em português e matemática e também a taxa de aprovação dos estudantes (quantos passaram de ano).

Divulgado a cada dois anos, o índice estagnou em 3,4 no ensino médio público (majoritariamente oferecido pelos governos estaduais), o mesmo indicador de 2009, ainda que dentro da meta de 2011.

Na rede privada, por exemplo, a nota média nessa etapa de ensino foi de 5,7. A meta estipulada é de 5,8.

O Ideb mostra também que o desempenho de estudantes do ensino médio público em português e matemática foi inferior ao atingido por alunos do último ano do fundamental particular. Em matemática, a nota foi 265 pontos na rede pública contra 298 na particular, por exemplo.

Para o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, é grande o número de matérias obrigatórias no ensino médio -atualmente são 13.

“É uma sobrecarga muito grande. Não contribui para formar melhor o aluno”, afirma. A proposta de redução do currículo nessa etapa do ensino público será apreciada pelo Conselho Nacional de Educação.

MELHOR DESEMPENHO

O desempenho dos alunos do ensino fundamental em escolas públicas foi mais animador.

Os estudantes do 5º ano do fundamental melhoraram e chegaram ao patamar que era esperado apenas para 2013: média 4,7.

“As gerações mais novas tiveram muitos fatores que beneficiaram o aprendizado, como o aumento de estudantes na pré-escola, melhoria da renda familiar e da educação dos pais. Então, é natural que o ensino evolua mais nessas séries”, diz o coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho.

Estadual de SP só melhora no ensino médio

Desempenho na rede pública paulista avança e passa da quarta para a segunda posição no ranking nacional

Entre estudantes do fundamental, o sistema paulista perdeu uma posição no ranking nacional e agora é o 3º

O ensino fundamental mantido pela rede estadual de São Paulo não apresentou melhora, aponta o Ideb.

A nota dos anos iniciais e finais dessa etapa de ensino ficou estagnada entre 2009 e 2011. Por outro lado, o ensino médio estadual paulista melhorou.

A rede estadual de São Paulo apresentou evolução apenas no ensino médio: o Ideb subiu de 3,6 para 3,9, nota prevista para a rede do Estado em 2013. Houve melhora no desempenho em português e na aprovação.

Com as notas melhores, o Estado subiu da quarta para a segunda posição do país.

FUNDAMENTAL

Nos primeiros anos do fundamental, a nota foi a mesma de 2009: 5,4, acima da meta para 2011, que era 5,3.

A taxa de aprovação dos alunos também continuou a mesma e houve leve aumento das notas em português e matemática -disciplinas avaliadas no teste.

Nessa etapa, o sistema paulista perdeu uma posição no ranking nacional e agora é o terceiro melhor do país.

Não houve evolução também dos indicadores dos anos finais da rede estadual, em que o Ideb permaneceu em 4,3 -também acima da meta, de 4,2. Nesse nível caiu da primeira para a terceira posição no país.

META POR AVALIAÇÃO

Para Francisco Soares, professor do grupo de avaliação e medidas educacionais da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), uma das hipóteses para que o Estado tenha melhorado no ensino médio e estagnado no fundamental é que, ao perceber o resultado de avaliações anteriores, o Estado investiu mais nos anos finais.

“A avaliação cria uma zona de desconforto para quem está no sistema. Foi uma reação aos resultados”.

A Secretaria de Estado da Educação diz que a rede, como um todo, ultrapassou todas as metas do Ideb.

“Os dados referentes à avaliação realizada no ano passado apontam que o ensino médio atingiu o indicador projetado para ser alcançado em dois anos. O índice obtido foi de 3,9, ante a meta de 3,6″, afirma em nota.

Segundo a secretaria, os indicadores do ensino fundamental não foram ruins.

“Para os anos iniciais do ensino fundamental, o Ideb foi de 5,4, enquanto a meta era de 5,3. No ciclo 2 do ensino fundamental, o indicador atingido foi 4,3, sendo que a projeção era de 4,2.”

Melhor 9º ano é de colégio em PE que está em greve desde maio

DE RECIFE

Com a maior nota no Ideb do 9º ano do fundamental, o Colégio de Aplicação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) está sem aulas desde maio, devido à greve dos professores federais.

Dos 411 alunos da instituição, só os do 3º ano do ensino médio continuam em sala de aula. Isso por opção dos grevistas, que decidiram não parar os estudos do grupo às vésperas do vestibular.

Para o diretor do colégio, Alfredo Matos Moura Júnior, os estudantes não serão prejudicados, apesar da greve. “As aulas serão repostas e ninguém vai perder o ano.”

Os alunos são selecionados em um disputado concurso anual para ingresso na sexta série. A prova, apenas com questões de português e matemática, atrai até 2.000 candidatos para 55 vagas.

A proporção, de 36 candidatos por vaga, é superior ao curso mais procurado no vestibular 2012 da UFPE, o de medicina, que obteve média de 34,9 postulantes por vaga.

Não há provas extras durante o ano letivo. A recuperação de alunos é feita “em sala de aula”, pelos próprios professores, disse o diretor.

Segundo ele, 70% dos docentes são mestres e doutores, 28% cursam pós-graduação e 2% são graduados.

“Não tem nenhuma mágica”, declarou Moura Júnior, sobre o aprendizado na escola, fundada há 54 anos.

“Nossa busca é por alunos mais críticos e mais sensatos.”

Análise

A melhoria dos resultados precisa ocorrer em todos os níveis de ensino

PAULA LOUZANO

Os resultados da Prova Brasil, divulgados pelo MEC junto com o Ideb, nos mostram o quanto os nossos alunos estão aprendendo.

Os estudantes de escolas públicas do 5º ano em 2011 aprenderam muito mais matemática -o equivalente a dois anos acadêmicos- que seus colegas que, em 2005, estavam na mesma série. Essa é uma excelente notícia.

Porém, partimos de patamares de aprendizagem muito baixos, e ainda estamos aquém de um aprendizado adequado. Mesmo em 2011, nem todos os alunos do 5º ano foram capazes de resolver uma divisão exata por um número de dois algarismos.

Mas a má notícia é que os demais níveis de ensino (6º ao 9º ano e o ensino médio) não acompanham o ritmo da melhoria dos anos iniciais.

E o que é pior: os níveis mais avançados de ensino parecem ter mais dificuldades em agregar valor quando os alunos chegam a eles mais bem preparados.

Por exemplo, os alunos de 2005, no fim do ensino fundamental, saíram em 2009 com 65 pontos a mais na prova. Já os de 2009 ganharam apenas 56 pontos ao finalizar o mesmo nível em 2011.

Os números parecem mostrar que não temos conseguido potencializar os ganhos do início da escolarização em níveis subsequentes de ensino.

Em tempo, boa parte dos nossos alunos no final do 9º ano já é capaz de realizar a divisão acima, mas aí descobrimos que eles não aprenderam a aplicar o conceito de porcentagem em situações simples.

Municipal melhora, mas não atinge meta

Turmas do 5º ano do fundamental da rede da cidade aumentam nota, mas ficam abaixo do esperado pelo MEC

Secretaria afirma que as primeiras informações indicam que a rede cresce, “mostrando o acerto das políticas”

O ensino fundamental da rede municipal de São Paulo melhorou nos dois últimos anos, mas não o suficiente para alcançar a nota 5, metade dos dez pontos possíveis no Ideb, avaliação do MEC.

No 5º ano do ensino fundamental, a nota subiu de 4,7 para 4,8 -a meta era de 4,9. São Paulo ficou em 11º lugar no ranking das capitais do país nessa etapa.

A Secretaria Municipal de Educação afirmou que embora não tenha recebido os dados oficiais do ministério, as primeiras informações indicam que a rede continua crescendo, “mostrando o acerto de suas políticas”.

Já no último ano do fundamental, o índice foi de 4,2 para 4,3. A meta era de 4,6.

RANKING NA CIDADE

No ranking geral da cidade, as escolas municipais só despontam na 61ª posição na avaliação do ensino fundamental do 5º ano.

Empatadas com outras 18 estaduais e com nota 5,9, estão as Emefs Tenente José Maria Pinto Duarte, Profª. Sylvia Martin Pires, Prof. Máximo de Moura Santos, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Cleomenes Campos, Major Silvio Fleming, Profª. Ileusa Caetano da Silva e a Emef Castor.

Já na avaliação do 9º ano, duas municipais -as Emefs Marechal Deodoro da Fonseca e Prof. Leão Machado, dividem a segunda posição e nota 5,7 com duas escolas do Estado -Prof Ennio Voss e Prof. João Borges.

Colaborou RICARDO BUNDUKY, de São Paulo

Escola particular tem nota maior, mas fora do ideal

Ainda que com qualidade muito acima do da rede pública, as escolas particulares do país não conseguiram alcançar as metas do MEC em nenhum dos níveis avaliados (5º e 9º anos do ensino fundamental e o ensino médio).

Nos três patamares, porém, houve pequenas melhoras no Ideb. Em geral, as notas de português e matemática tiveram discretos avanços.

Segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, uma das explicações para a dificuldade de a rede melhorar foi o aumento do número de matrículas.

Entre 2010 e 2011, os colégios particulares receberam 5% mais alunos, acréscimo de cerca de 500 mil estudantes. No mesmo período, a rede estadual encolheu 3%, e a municipal, 2%.

O ministro ressaltou, porém, que a rede privada é avaliada de forma amostral na Prova Brasil (exame nacional que é a base do Ideb), o que dificulta a análise sobre o sistema. No ensino fundamental público, todos os colégios participam.

A ideia do ministério é tornar a prova obrigatória também para o sistema privado de ensino. “Pessoas que estão ascendendo economicamente têm entrado na rede particular. Ela precisa ser mais bem acompanhada.”

Para tornar o exame obrigatório na rede particular, porém, o governo precisa aprovar um projeto no Congresso.

Para Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do sindicato dos colégios privados do Estado de São Paulo, o resultado não é fiel, pois são poucas as escolas que participam da prova.

Ele não se opõe à obrigatoriedade da avaliação para a rede. “É obrigação do governo avaliar”, diz.

Foco

Em São Paulo, escolas estaduais despontam entre as melhores

Neide Matias Prieto, 60, é diretora da escola estadual Luís Arrôbas Martins e está na escola há 15 anos, como boa parte dos professores.

O colégio, na Vila Cruzeiro (zona sul da capital), é o melhor da rede pública até o 5º ano do fundamental na cidade, empatado com a Escola de Aplicação da USP.

Para a diretora Neide, a criação de uma biblioteca e os programas do governo para estimular leitura, escrita e matemática fizeram a diferença.

“Percebi o gosto pela leitura dos alunos, que retiram todos os dias diversos livros da biblioteca”, diz.

A escola conta ainda com o Parceiros da Educação, empresários que participam das atividades. São 680 estudantes em dez salas de aula de manhã e à tarde.

Na Cidade Universitária, a Escola de Aplicação da USP divide o espaço nas salas: são 20 vagas para filhos de professores e de funcionários da universidade, mais 20 para quem tem pais que trabalham na Faculdade de Educação, e as outras 20 para a comunidade; todas ocupadas após sorteio.

“Com a estrutura da USP conseguimos passar para os alunos uma matriz curricular diferente”, diz o vice-diretor Felipe de Souza Tarabola, 30.


Fonte: Folha de S. Paulo – FÁBIO TAKAHASHI – FLÁVIA FOREQUE – TALITA BEDINELLI – FÁBIO GUIBU – THIAGO AZANHA



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